# A História de uma Nomeação

2021-10-02 tag_cinemaqui tag_movies ^

A diretora russa Avdotya Smirnova, junto dos roteiristas Pavel Basinsky e Anna Parmas, constrói este conto de guerra ambientado na época de ninguém menos que Leo Tolstoy, o escritor nomeado ao Nobel por cinco vezes e que nunca ganhou. Toda a humanidade do personagem de Tolstoy está a serviço da trama de A História de uma Nomeação, que gasta muito tempo no seu desenvolvimento até chegar em seus finalmente e começar a ficar bom.

A história é baseada em fato real, o que impacta quando vemos seu final. Gira em torno da vinda de um filho de general para servir a uma tropa interiorana em época de paz, treinando para servir o tsar no ainda império russo. Grigoriy Apollonovich Kolokoltsev é um jovem imaturo que junto de seus colegas se diverte com brincadeiras inconsequentes, como embebedar um elefante até a morte. Sua chegada intimida o capitão em serviço, além de revelar mágoas de parte do pelotão, em especial do alferes, um alcoólatra cuja idade já avançada contém uma história escondida em seu passado.

As melhores cenas do filme contam com a presença do escritor russo, interpretado por Evgeniy Kharitonov como um símbolo. Incapaz de qualquer ato humano, vemos Tolstoy mais como uma visão idealizada e canonizada do que um ser humano com olhar perspicaz para a natureza humana. Ele já vem com as conclusões prontas conforme os acontecimentos ocorrem sob seu olhar relaxado. Mesmo uma trama familiar envolvendo sua cunhada é pouco para forçar um pouco de emoção.

A direção de Smirnova é de quem está com o orçamento apertado, mas usa a câmera a seu favor, realizando transições elegantes, mas que passam despercebidas porque todo o resto cheira a telenovela. O elenco não é experiente em épicos, e este épico de guerra contém poucos soldados. Falta substância onde sobra filosofia. Por isso o desenvolvimento fica moroso, já que o terceiro ato é onde a maioria dos acontecimentos se desdobra para um dilema que ninguém que não conhece a história conseguiria prever (muito menos se você não for um russo habituado à sua história). É nesse momento que o filme emplaca, mas termina logo. Os momentos mais angustiantes são dirigidos com uma burocracia lastimável.

Ainda assim terminamos o filme querendo ler algum conto de Tolstoy ou pesquisar por essa suposta história real. É o gostinho de quero-mais quando a coisa começa a ficar boa.


# Confissões de uma Garota Excluída

2021-10-04 tag_cinemaqui tag_movies ^

Vamos recapitular como funciona o roteiro de Confissões de uma Garota Excluída para entender o que há de errado com o mundo: ele começa com o drama particular de uma garota normal que quer se sentir especial e desejada por garotos mais lindos do que ela; então ela chega na sala de aula com a autoestima lá embaixo e carente de amizades; logo ela encontra os outros excluídos, que se juntam para fazer uma crítica social disruptiva sobre o papel dos jovens nesse milênio que se encaixam fora da caixa do que era considerado esteticamente aceitável no século passado, e por fim decidem que basta existir para ter direito à felicidade. Fofo, não?

Questões nunca vistas no cinema estão neste trabalho inovador que discute sobre bullying, pelos em mulheres, festas de aniversário com tema anos 60 (com música do ano passado) e a vovó zoando a neta a cada oportunidade. Um festival de humor misturado com cartilha social. Eu nem sei o que deve ser drama e o que é comédia. Não tenho sensibilidade suficiente para entender essa molecada que nasceu ontem. São espertos, simpáticos e possuem o super-poder da juventude, onde todo mundo é lindo e sarado (ou quase), mas as mentes estão zumbificadas, petrificadas, e quem tem conhecimentos básicos de biologia aos 16 anos é considerada uma gênia.

No entanto, o filme pode ser chamado de bacana. A atriz que faz a protagonista, Klara Castanho, é muito carismática e dá uma volta no elenco morno e automático formado por jovenzinhos metidos a galã ou romântico clássico, patricinhas genéricas da escola metidas a populares, entre outros tipos vistos em cada espécime de comédia adolescente americana, com o detalhe que aqui se passa em bairro nobre da cidade do Rio de Janeiro, ou seja, uma classe média que gostaria de ser americana, mas com sotaque carioca.

Klara Castanho é uma linda garota e colocam óculos e despenteiam seu cabelo porque ela não liga para isso. Paradoxalmente aceitação é o que ela mais liga no mundo, não conseguindo relacionar que aparência é a primeira coisa que as pessoas irão usar para te julgar antes de te conhecer melhor. Até um animê que assisti recentemente, para crianças, conclui este óbvio ululante. É escandaloso como as obras audiovisuais para pseudo-cinema forçam a barra a todo momento no Ocidente querendo ignorar a realidade por motivos escusos.

Mas, enfim. "Confissões..." não é um filme ruim se você quer apenas passar uma horinha e meia paralisado no sofá, seu cérebro congelado, se distraindo com piadinhas inofensivas e historietas previsíveis. Pois é, o parágrafo sobre "questões nunca vistas no cinema" e "trabalho inovador que discute sobre bullying" obviamente é uma observação sarcástica sobre um conteúdo requentado. Se você não percebeu isso, tenho boas notícias para você: vai adorar este filme; ele deve figurar entre os melhores infanto-juvenis do ano para você. Que sortudo =)

O diretor Bruno Garotti continua tropeçando em conteúdo semi-ótimo, embora sua estreia em longas, Eu Fico Loko, tenha sido um trabalho notável. Porém, são "novos tempos", e para piorar ele está munido de um trio de roteiristas engajadas: Flávia Lins, Christiana Oliveira e Thalita Rebouças, que unem diferentes temas como quem faz colagem escolar para trabalhos do primário. Funciona para espectadores de TV. Querer cobrar por um ingresso no cinema é forçar a Barra da Tijuca demais.


# Hitoribocchi no Marumaruseikatsu

2021-10-04 tag_animes ^

Essa menina resume para todos nós tímidos o que era o ensino médio. Cercados de preocupações sobre como se comportar em sala de aula ou desenrolar uma conversa informal, nossas cabeças estavam o tempo todo maquinando um plano e revendo episódios passados.

Hitori Bocchi é essa garota que é forçada pela ex-amiga do primário a arrumar amigos depois que se separaram. Aliás, bem mais do que isso, pois este é um anime de humor: fazer amizade com todos os alunos de sua classe. Humanamente impossível até para os mais populares, um desafio divertidíssimo de acompanhar.

Na primeira temporada ela vai acumulando algumas amigas que são quase tão estranhas quanto ela mesma. A discussão sobre amizades forçadas e naturais surge a todo momento e é a força motriz que nos faz entender por que temos amizades afinal de contas. É um roteiro com um pouco de caos que anima os corações.

A estrela será sempre Bocchi, que na segunda-feira passa de carteira em carteira introduzindo seu nome para ter certeza que as novas amizades não a esqueceram. Ela também interpreta tudo errado. Quando ela ouve falar nos obstáculos para começar uma nova amizade ela já planeja ingressar na aula de atletismo. Ela é o Bob Esponja dos animes, mas porque sua mente está muito cheia de preocupações sobre resgatar sua antiga amizade, mas às vezes parece que ela é apenas cabeça-oca.


# Null & Peta

2021-10-04 tag_animes ^

Um anime com algumas referências de programação (Null) porque a protagonista, uma garotinha gênio, reconstrói sua irmã (não sabemos seu paradeiro) no corpo metálico de um robô que mantém sua personalidade. Ou quase, e é essa a graça, quando criatura não se comporta como a criadora imaginava.

Uma história engraçada e dramática, pois a menina mora só e está engatinhando na recuperação da perda da irmã.


# Uza Maid!

2021-10-04 tag_animes ^

Este anime possui um esquema manjado, mas é engraçadinho pelo exagero. Uma ex-força aérea lolicon, viciada em menininhas, arruma emprego como empregada de uma casa onde mora uma menininha russa, que para ela é um anjo por não estar ainda menstruada. A maid é trincada e cozinha bem, dominando a rotina da pobre menina que perdeu a mãe cedo. Os episódios giram em torno da obsessão da maid em ser bff de uma raridade no Japão: menininha loira de olhos azuis. Otchen Rarachô.


# Round 6 (Squid Game)

2021-10-08 tag_series ^

Esta é uma distopia contemporânea interessante, porque usa ideias mesmo que velhas passadas com mais organização e propriedade. As mortes violentas dão o tom e faz pensar mais no sistema do que nas mortes. As mortes não importam quando ocorrem em massa. É o sistema, a alegoria controlada do capitalismo, o forte da série.

Ela começa muito bem. De forma visceral já explica as regras do jogo desse povo endividado que foi convidado a participar e concorrer a um prêmio milionário. Eles foram voluntariamente sequestrados e assinaram um termo onde a palavra "eliminado" tem significado literal.

O primeiro episódio demora a começar para apresentar o herói e a situação lamentável que ele se encontra, endividado com a mãe doente, divorciado que vai se distanciar da filha, viciado em jogos. Um ser humano fraco. Mais fraco que eu e você, para não nos imaginarmos naquela situação de desespero em entrar em um Jogos Mortais versão Show do Milhão com alguns poucos toques lúdicos.

A produção é muito bem feita e capricha na estética. A trilha sonora impecável dá o tom daquela realidade exagerada e sistêmica do microcosmos onde matar não apenas é possível sem punição, mas é uma das regras do jogo. A ideia por trás é uma versão da vida real exagerada, um simulacro da natureza onde os mais fortes, sortudos e implacáveis deixam os mais fracos, azarados e bondosos para morrer. Quem poderá salvá-los senão o roteiro bonzinho?

Porém, este não é um roteiro que anda por caminhos tão fáceis. Em sua eloquência vai deixando pistas para o espectador mais atento refletir. No primeiro episódio, por exemplo, você terá todas as pistas que precisa para recolher as recompensas pelo resto da temporada, começando pelo jogo infantil inicial, que apresenta uma amizade do passado, ou a corrida de cavalos, e a última esperança dos desafortunados.

Seu final, o verdadeiro final (ignorando o gancho pós-final para continuações), que ocorre em uma das melhores cenas dessas 8 horas de filme, acontece do alto de um prédio e com cortes exatos, milimétricos, entre um relógio, um doente terminal e um ser humano jogado na neve. São momentos tensos? Nem tanto. O que cria tensão é que a série nos faz pensar sobre tudo que passamos e qual a mensagem de tudo isso. O ser humano merece mais uma chance? Existe esperança? A resposta não é fácil, e a série não desaponta.

Este seria um filme impecável de no máximo três horas de duração. Há momentos muito, muito bons, espalhados pelas rodadas sanguinárias. Mas era uma história boa demais para o serviço de streaming produzir em versão enxuta e acabável. Uma pena, mas um pecadilho frente à coesão dessa aventura pensante. Na medida do possível.


# Lista da pessoas que estavam no grupo de cabines de imprensa da Mostra 45

2021-10-09 tag_movies ^

Ano passado eu havia feito uma lista das pessoas na coletiva, e agora estou fazendo o mesmo para futuramente fazer pesquisas para ver se acho a fonte.

  • Camila Vieira
  • Alysson (Cine com Pipoca)
  • Luiz Joaquim
  • Renato Acha
  • Rodrigo de Oliveira
  • Will Spiler (Ultraverso)
  • Filippo Pitanga
  • Hugo Dourado
  • Flavia Guerra
  • Bruno Simioni Cunha
  • Isra Matos
  • Mauricio Gonzalez
  • Egypto
  • Fabio Allves
  • Luiz Zanin
  • Carlos Cirne
  • Giba Dionisio
  • Simone Miletic
  • Gabriel Danius
  • Marcelino Nobrega
  • Joao Flores
  • Vinicius Machado
  • Rosane Pavam
  • Nerd Rabugento
  • Maria Fernanda Vieira
  • Larissa Teixeira
  • Matheus Mans
  • Eduardo Ferrarini
  • Sil Fuchs
  • Gui Spada
  • Fernando Machado
  • Euller Felix
  • Denis Le Senechal Klimiuc
  • Victor Martins
  • Karen Meira
  • André Botelho
  • Leonardo Lopes
  • Lúcia Zanelli

# Alice in Borderland

2021-10-12 tag_series ^

Entendeu esse trocadalho? Quanta inteligência. Bom, essa é uma série que começa com uma edição excelente em seus primeiros minutos. Note como os três amigos e suas vidinhas são introduzidos em um piscar de olhos. Acompanhamos sua conversa online, andando no celular, e logo eles se encontram no cruzamento mais famoso de Tóquio, apinhado de gente. Meu Deus, é muita gente. O diretor quer nos mostrar justamente isso, pois minutos depois um incidente ocorre e você irá testemunhar um elegantíssimo plano-sequência, ou seja, uma cena com vários cenários sem cortes aparentes, uma corrida ao banheiro e seu retorno e vupt: todas as pessoas somem. Uma cena marcante, convenhamos. Principalmente pelo que vem a seguir: um trash adolescente sem pé nem cabeça.

Os três jovens entram em prédio porque um letreiro aparece falando que vai começar o jogo, coisa e tal. E então chega uma mina do nada, ela já sabe sobre o jogo, e ninguém estranha. Também não dá muito tempo, pois chega uma segunda mina pronta para morrer. Você olha para ela e está estampado em sua testa que ela veio só para mostrar que o jogo é real e pode te matar. "Oi. Nossa, cheguei bem a tempo de morrer. Que sorte!"

Então começa o jogo. Uma tensão bacana se constrói com a morte da minazinha, mas logo entra em cena esses roteiros que um autista descobre a fórmula para desvendar o jogo baseado em análises que ele tirou de um lugar que não posso falar aqui pois seria baixo calão até para este blogue, e não há nada que não-jovens possam fazer assistindo isso senão suspirar: mais um conteúdo descerebrado sem fim. Desisto.

Mas aquele plano-sequência foi marcante. Esse diretor precisa de um roteirista melhor.


# Higiene Social

2021-10-12 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

O nome Higiene Social para um filme pós-pandemia pode querer dizer muitas coisas, mas nenhuma delas está no novo filme de Denis Côté (Antologia da Cidade Fantasma), que irá passar na Mostra de SP esse ano. Então o que há para ver? Distanciamento social. Nenhum dos atores está a menos de três metros dos outros, e há no máximo três deles por cenas. E ninguém precisa usar máscara. Iupi!

Eles também estão em um espaço aberto, o campo, junto de vaquinhas, mato e árvores. Eles poderiam estar no teatro para dizer suas falas e não faria muita diferença do ponto de vista do espectador. Bom, seria um espaço fechado e teríamos que evitar lotação, passar álcool gel, estar de máscara e estar com a carteirinha de vacinação em dia. Você já está pronto para sua quarta dose em 2022?

Voltando (ou começando) a história, ela trata das tentativas deste homem se livrar de cinco mulheres em sua vida: sua irmã, sua esposa, sua amada, sua vítima de um de seus roubos e sua fiscal do imposto de renda. Haja verbetes para conseguir se salvar!

O homem fala e fala, mas elas não arredam o pé. Todos estão vestidos à moda antiga porque esta história é praticamente atemporal, mas o real motivo é porque o discurso é pomposo, sujeito a inúmeros devaneios. Há mais devaneios do que "conversa produtiva".

Assim como filme. O protagonista é cineasta e no final comenta que nunca fez nenhum filme. Ele imagina vários, mas não encontrou ainda essa "ponte que liga a vida real ao que ela pode ser" (suas palavras). Esse poder ser é a arte do cinema, mas, diabos, voltamos a falar da pandemia, porque agora a vida real é estar enfurnado em casa e o potencial está lá fora.

Basicamente esta é a história, caro leitor. Pessoas conversando no mato sobre ideias aleatórias. Se você assistir como eu trancado no quarto vai se deliciar com o vento que bate nas árvores. Vai poder imaginar, pelo menos. Esse é o poder do cinema. E nessa fase avermelhada das epidemias sociais é o que temos para hoje.


# Má Sorte No Sexo Ou Pornô Amador

2021-10-12 tag_mostra tag_movies ^

Dvidido em três partes e com três finais, esta comédia ganhou Urso de Ouro em Berlim e eu não tenho palavras para este filme.

Estamos na pandemia de 2020 e esta professora caminha pela capital da Romênia. Ela está indo para uma reunião de emergência com pais e professores que irão decidir seu destino após um vídeo íntimo com o marido vazar na internet e ser encontrado pelos seus alunos adolescentes. O vídeo você confere no começo do filme e ele está muito bom, foi um dos melhores que já conferi no PornHub/Mostra de SP. A garota está sensacional. Segue minha pequena crítica a este curta pornográfico de brinde na Mostra:

O movimento de câmera é pedestre, mas há uma edição inusitada para um vídeo caseiro com dois adultos excessivamente empolgados. A moça tem belos peitinhos, mas seu forte fica na parte de trás, um prêmio apenas para o final. Enquanto isso ela paga um boquete sob os comentários inconvenientes de sua mãe atrás da porta do quarto a respeito do seu filho que não tomou remédio, uma denúncia sobre os cuidados relapsos de uma mãe excitada demais para ter o segundo em vez de cuidar do primeiro. O meio da sequência contém uma cena risível envolvendo um chicote, lembra comédia de quinta, e isso é uma grande queda antes do clímax envolvendo penetração cachorrinho, imperdível, mesmo com o áudio grotesco do marido. Por serem casados merece o descrédito do espectador de vídeos amadores: tenham vergonha que vão vender esse vídeo com o rótulo de vazado e confessem essa produção mediana do pornô europeu.

Agora voltamos para a "triste" realidade de 2020: as pessoas nas ruas usam máscara, passam álcool gel, todo aquele protocolo que nos acostumamos a viver por mais de um ano. Depois de um tempo assistindo você pode até pensar se precisa lavar as mãos. É uma sensação contagiosa mesmo assistindo no conforto do lar.

A câmera desfila pela cidade conforme acompanhamos sua caminhada. Ela vai andando. O diretor começa uma cena e termina ela em lugares inusitados da paisagem cotidiana, seja um shopping ou uma basílica, como se estivesse a fazer montagens. Para o espectador não-romeno é uma curiosidade.

Há conflitos entre as pessoas, que estão de péssimo humor no meio de uma pandemia. Nós ouvimos os relatos da vida real, foi assim mesmo. Alguns até testemunharam, e aos poucos aprendemos aos poucos a segurar a onda (os menos inteligentes e extrovertidos criaram movimentos sociais no meio dessa bagunça). Quer dizer, espero que a maioria tenha aprendido o mínimo de civilidade nesse momento delicado. Como não ficar com ódio do coleguinha apenas porque ele escolheu não se vacinar. Detalhes da vida contemporânea.

Há uma fixação do diretor nesse terço de filme em capturar os carros em cima da calçada e os muito caros e grandes. Ele quer com isso representar a desigualdade social da Romênia, que mudou drasticamente nesses 30 anos após cair a ditadura comunista. Vamos levando essa herança pela história. Nada muito sério. Esta é uma comédia.

Prova disso são os cartazes de início de cada parte de fundo rosa e música engraçada. Se você sentiu nojo do pornô amador do começo ou alienado pela caminhada da garota que pagou um boquete ao marido, na segunda parte você poderá aprender um pouco mais sobre a humanidade. Sim, pois é um guia de curiosidades. Não totalmente destacado do nosso tempo de ultra informação, pois é um comentário espirituoso do que virá a seguir.

E o que vem a seguir é a cereja do bolo. Uma reunião na escola que lembra aquelas épicas de um condomínio classe média. O filme se revela de uma vez por todas uma comédia escrachada, mas é aí que começa a desfilar uma série de opiniões e desinformação na forma de entretenimento. Um microcosmos divertidíssimo se cria para comentar o pandemônio que o mundo vive. É engraçado, entretém, faz pensar. E conhecer. Você sabia que há estudos sobre memorização e conhecimento? Nem eu. Na verdade não há, é só opinião de uma autoridade romena. E por aí vai a valsa. Detalhes mais banais como holocausto e gripezinha são ditas de passagem. As fantasias complementam a peça.


# Armugan

2021-10-14 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

"Ninguém morre sozinho" é uma frase que contraria o conhecimento comum que diz justamente o contrário: todo mundo morre sozinho. Assim começa esse filme do diretor espanhol Jo Sol, que cria uma figura mitológica contemporânea responsável por ajudar os que respiram pelos últimos minutos a passar dessa pra melhor.

Antes de mais nada é preciso ressaltar que existe um hino nesse filme, ou na verdade dois: dessa pessoa e dessa passagem para o além. Esse hino é composto e conduzido por Juanjo Javierre para criar um tema épico e memorável. E consegue. Quando menos esperamos estamos a cantarolar em nossas cabeças essa maneira averbal de narrar este conto um tanto foclórico.

Uso o folclore porque a figura de um homem carregando um aleijado em suas costas para onde quer que ele precise estar para realizar o seu serviço ingrato da morte é uma imagem mística que não nos pertence mais. O filme evoca isso em seu ritmo mais lento, que vira solenidade. O belíssimo, límpido preto e branco também auxilia a pensar em atemporal, ou de muito tempo atrás.

Este homem, Ánchel, carrega um mito nas costas, e este mito, que dá título do filme, é a única interpretação de Íñigo Martínez, que talvez não faça sentido chamar de ator, pois sua natureza física o torna o personagem por honra. Sua postura ingênua e moribunda pode enganar em aparência, mas logo temos duas sequências em que o vemos ser levado para levar duas pessoas para fora da vida. É uma cerimônia quase religiosa, se não fosse prática, mas elas morrem de qualquer jeito. E é esse o objetivo da cerimônia.

Um conflito surge no meio envolvendo uma criança e onde se discute a função desse "moribundo ingênuo". Não é construção artificial do roteiro minimalista, que deve caber em três páginas, livre de diálogos para nos distrair de sua essência. Se trata de uma questão fundamental sobre a natureza dessa profissão mítica e suas regras. Então é necessária, chama nossa atenção. Mais do que o filme inteiro, que se traduz em um "slice of life" da dupla inseparável.


# Flor do Meu Segredo

2021-10-14 tag_movies ^

Eu sempre penso que já vi um Almodóvar. Sobretudo os antigos. Devo ter visto no Belas Artes, esse antro artístico da Augusta/Consolação na capital paulista, há muito tempo atrás. Ou não. O diretor é repetitivo como Woody Allen, mas isso é ótimo, pois o estilo de ambos pode ser repetido à exaustão. Quando estão em forma ninguém segura o amor desses dois pelo cinema.

E no caso de Almodóvar o amor pelo cinema, pela Espanha, pelas mulheres, pelas criaturas que conversam em seu imaginário, de suas memórias. Almodóvar é autêntico, e seus personagens acabam sendo também. E não tem como desgostar de personagens autênticos. Você pode achar a trama fraca e novelesca, mas seus personagens têm pertencimento, por onde quer que andem no universo almodovariano.

Aqui temos a figura tráfica, multifacetada, louca, de uma mulher, desculpe o trocadilho, à beira de um ataque de nervos. Ela é uma escritora de sucesso que vive nas sombras, aguarda um marido de um casamento falido e nem repara que foi traída pela melhor amiga. Ela vive parte dos dramas que escreve na vida real, mas o roteiro não é tão direto assim. Ele dialoga com as possibilidades.


# Megalobot

2021-10-15 tag_animes ^

Este anime contemporâneo começa como se fosse dos anos 80 e energizado com uma trilha pauleira, mas aos poucos se revela um estudo dedicado sobre detalhes do boxe, do esporte em si, e um pouco sobre esse arco fascinante dos perdedores escalando seu caminho rumo ao topo. A síndrome de Rocky, Um Lutador.

Os detalhes do esporte que eu digo é sobre postura do lutador, ritmo, relação peso e força, agilidade combinada com oportunidade. Eu nunca vi, nem no cinema, um trabalho tão dedicado em esmiuçar essas questões sem ser um documentário ou cheio de texto. Aqui você sente esses momentos nas lutas que assistimos, desenhadas com afinco para sentirmos o impacto das mudanças nas atitudes dos lutadores.


# André Bazin

2021-10-16 tag_movies tag_quotes ^

> A função do crítico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o leem, o impacto da obra de arte.


# Harold Rosenberg

2021-10-16 tag_movies tag_quotes ^

> Nem o grau máximo de tédio pode salvar uma obra da determinação dos críticos em achá-la fascinante.


# I Comete - Um Verão na Córsega

2021-10-16 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

I Comete é uma brisa de ar fresco pós-pandemia que muitos ainda esperam. Poder fazer parte de sua comunidade sem medo. Interagir sem qualquer restrição de espaço. Falar sobre o cotidiano. O quão pouco perdemos nos últimos dois anos acaba sendo o pouco que mais importa.

Estamos na ilha de Córsega, no Mediterrâneo. Quarta maior ilha da região, ela acabou sendo anexada pela França apesar da maioria da população falar outro idioma (corsa) e ter costumes bem diversos do continente. No entanto, o filme trata mais do que há de comum entre todos seres humanos e as diferenças formam uma camada fina, apenas mais uma situação motivo de conversa.

Há muito bate-papo no filme, quase todo, sobre amenidades, opiniões ou decisões do dia-a-dia. Vários níveis de comunicação humana são vistos, e todas elas bem naturais e que devem ocorrer milhões de vezes todos os dias pelo mundo. O filme é uma gravação documental, sem muito roteiro. Os diálogos são inventados pelos personagens do cotidiano e apenas a linha geral das histórias segue a batuta do seu diretor. E roteirista. E ator. E editor.

Esse filme de câmera sempre parada é o primeiro na direção de Pascal Tagnati, que já atuou em alguns trabalhos, sempre em participação menor, como A Odisseia de Alice e A Lei da Selva. Aqui ele faz Théo, um rapaz deprimido. Théo não une o resto dos personagens. Há pouca conexão na trama entre eles. O ponto em comum é que todos vivem esse verão no mesmo espaço da ilha. É o reencontro anual dos que moram no continente e os nativos.

Apesar de duas horas, "Um Verão na Córsega" passa rápido. Com seu ritmo leve e muitos personagens e diferentes tramas que não levam a lugar algum, se trata de uma experimentação simpática e insossa. Uma fuga do espectador da vida comum direto para a vida comum dos outros. É o cinema como meio de transporte entre bolhas.


# Imperial Vin: Grape Angel

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Blend de Merlot e Rara Neagra (30/70), de 2019. Feito na Moldova. Não me parece um reserva, mas há aromas terciários de madeira. O sabor é equilibrado com corpo médio e uma acidez com certa adstringência. Perdem-se rápido as sensações.


# Livros sobre Cinema

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  • 50 Anos: Luz, Câmera e Ação, Edgar Moura.
  • O Cinema Além das Montanhas, Pablo Villaça.
  • O Cinema da Retomada, Lúcia Nagib.
  • Criando Kane e Outros Ensaios, Pauline Kael.
  • Dicionário Teórico e Crítico de Cinema, Jacques Aumont, Michael Marie.
  • O Diretor de Fotografia, Jorge Monclar.
  • Ensaio Sobre a Análise Fílmica, Francis Vanoye.
  • A Estética do Filme, Jacques Aumont.
  • A Experiência do Cinema, Ismail Xavier.
  • Fazendo Filmes, Sidney Lumet.
  • Os Filmes que Vi com Freud, Waldemar Zusman.
  • Hitchcock/Truffault: Entrevistas, Truffaut & Hellen Scott.
  • A Imagem-Tempo, Giller Delleuze.
  • A Linguagem Secreta do Cinema, Jean-Claude Carrière.
  • Manual do Roteiro, Syd Field.
  • Num Piscar de Olhos, Walter Murch.
  • As Principais Teorias do Cinema: Uma Introdução, J. Dudley Andrew.
  • O Sentido do Filme e A Forma do Filme, Sergei Eisenstein.
  • A Significação no Cinema, Christian Metz.
  • Tarkovski - Esculpir o Tempo, Andrei Tarkovski.

# Paulaner

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Fiz uma desgustação semana passada com vários rótulos da Paulaner. Já tinha experimentado alguns, mas não em sucessão de forças e aromas. Gostei de todos, mas acho um pouco equilibrado demais. Gostaria de um soquinho a mais no estômago. Não como Colorado, mas um meio-termo como as cervas de Blumenal que degustei recentemente.


# Primeira crítica da História: Maxim Gorky, Rússia, junho de 1896

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> Na noite passada, estive no Reino das Sombras. Encontrava-me no Aumont e vi o cinematógrafo de Lumière: trata-se de fotografias em movimento. A impressão extraordinária que o aparelho consegue criar é de tal forma singular e complexa que chego a duvidar da minha capacidade de descrevê-la em todas as suas nuanças... Parece trazer em si um prenúncio vago e sinistro, que faz emorecer o coração. A gente esquece onde se encontra. Imaginações estranhas invadem a mente, e a consciência vai-se desvanecendo. Repentinamente, ao nosso lado, ouve-se a alegre e tagarelice de uma mulher e sua risada provocante... e lembramo-nos de que estamos no Aumont, no Charles Aumont. Mas como, com tantos lugares que existem, foi exibida aqui esta notável invenção de Lumière, que atesta mais uma vez o poder e a curiosidade da mente humana, sempre procurando solucionar e abarcar tudo. (...) Estou convencido de que estes filmes logo serão substituídos por outros de um gênero mais adequado ao espírito geral do Concert Parisien. Passarão a ser exibidos filmes intitulados, por exemplo, Quando Ela se Despe ou Madame no Banho ou, ainda, A Senhora de Meias.


# Roger Deakins

2021-10-16 tag_movies tag_quotes ^

> Quando você move a câmera, este movimento deve significar algo.


# Como resolver ownership do SSH

2021-10-19 tag_coding tag_debugging ^

Primeiro tente logar com o usuário enquanto roda o comando abaixo no server para ver mensagens de log:

   # see logs from ssh server
   journalctl -f -t sshd

Se for problema de ownership então resolva dessa forma:

   # fix ownership for ssh server users
   chmod go-w ~
   chmod 700 .ssh
   chmod 600 .ssh/authorized_keys

# Blue Period

2021-10-21 tag_animes ^

Um estudante de colégio dedicado aos estudos apenas na hora de escolher a faculdade descobre a paixão nas artes. Não compreendendo porque se arriscar em uma carreira cara que geralmente não se paga na vida lá fora, ele dá o grande salto no escuro. Esta série de anime apresenta uma estética agradável nas pinturas e detalhes para aprendermos melhor as técnicas que estudantes de pintura usam no dia-a-dia. Bom ritmo.


# O Compromisso de Hassan

2021-10-21 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

O Compromisso de Hassan, filme da Mostra esse ano, é lindamente fotografado por Özgür Eken (colaborador habitual do diretor), e com razão: as tomadas evocam decisões humanas sob um prisma da natureza de cada ser. Algumas pessoas são o que são. Não importam as circunstâncias, elas sempre estarão acima das outras.

E está errado? Dentro do espectro de decisões humanas nesse filme a resposta é não. Hassan e sua mulher recebem bençãos e ao mesmo tempo conduzem seus negócios como quem cuida pessoalmente de cada pomar, colhendo cada fruto de suas conquistas. Dentro do jogo de influências humanas eles são os espertos que se aproveitam do status quo, o que não apenas escancara a ineficiência, ingenuidade e incompetência dos outros indivíduos, mas das próprias instituições democráticas.

Mas no começo não é assim. Vemos Hassan conversando com um engenheiro que vem inspecionar e avisar aos donos das terras que uma torre de energia passará por cima de suas plantações, tornando-as improdutivas. Parece que começa uma daquelas histórias sobre a luta contra a injustiça, mas o filme inteiro é para inverter nosso ponto de vista, nos fazer pensar sobre o poder da narrativa, conforme Hassan passa a perna em tudo e em todos. E com lágrimas nos olhos ainda por cima.

"Pessoas dependem dessas plantações de tomates", ele diz ao engenheiro. Não é mentira. E a história ganha ares trágicos conforme as transações ocorrem, e a troca de favores e serviços adquire um tom amargo. Os pesadelos de Hassan indicam que ele se sente culpado ou temeroso que sua hora chegue? É a poesia da ambiguidade que atinge essa narrativa conforme o diretor turco Semih Kaplanoglu nos brinda com tomadas de tirar o fôlego, cheias de cor, saturação e significado.

E quando exige, o filme fica de um nublado imperial, opressor, de nuvens que nunca mais sumirão. Tudo depende do momento e o filme ganha uma coleção de momenta, ou seja, vários momentums (assim mesmo, do Latim), com um ritmo mais lento que o desejável, à espera que um espectador mais lerdo entenda o subtexto, que não é simples nem direto, mais por pecado do diretor (e roteirista) do que pelo estilo, já beneficiado na estética (e deveria ficar assim).

O passado de Hassan em sua infância, descansando na sombra enquanto seu irmão mais velho se esforça, explica sua posição privilegiada no futuro? É um comentário social pertinente, ousado, provocador. A árvore é o símbolo dessa época e do seu compromisso com a verdade. E é gostoso confabular com os próprios botões se é que existe esse compromisso.


# A Garota e A Aranha

2021-10-23 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

Não é delicioso ver tantas mulheres loiras e bonitas te encarando através da câmera? Essa é a magia por trás de A Garota e A Aranha, um filme cuja maior atração é olhar para essas mulheres e imaginar as mil e uma estripulias que se passa por suas cabeças.

Uma delas está de mudança. As outras vêm ajudar e ficar zanzando pela casa. Há também as vizinhas de baixo e de cima. Cachorros. Gato. Crianças. Funcionários da mudança. E Mara, uma moça sapeca.

A moça sapeca apronta quando ninguém está olhando. Ela também gosta de mentir. Vamos descobrindo que todas essas mulheres são ou foram muito sapecas. Menos a que está de mudança. Ela olha para a mãe que veio ajudar; ela está flertando com o senhor da mudança; a filha comenta que nunca sentiu que ela fosse realmente sua mãe. Algo estranho de se falar sobre a própria mãe, não? É algo mais comum de se imaginar do pai, eu diria, mas o filme escrito e dirigido por Ramon Zürcher e Silvan Zürcher explora mais as personalidades do que o parentesco entre os personagens.

Brincando com nossas percepções do cotidiano enquanto estamos sendo encarados por essas charmosas musas, de todos os estilos e idades, o ápice do filme se torna uma pós-balada de boas vindas da nova moradora. No meio da noite uma das garotas brinca com o órgão genital do rapaz com quem dormiu. Outra garota coloca seu capacete de moto, lembrando no escuro uma versão light de Darth Vader nu com peitinhos. Ela adentra o quarto com esse capacete. E de repente você saca: é filme de arte.

As impressões de A Garota e A Aranha nunca são certeiras, mas quase sempre curiosas. O filme é uma viagem. A música-tema, tocada em diferentes tons, beneficia o filme. Beneficia qualquer filme que toque. Voyage Voyage, do cantor francês Desireless, é um hino versátil que atravessa décadas. Aqui coube melhor ainda.

"A Garota..." reflete sobre o piano abandonado desde a fuga da empregada pianista enquanto observamos uma direção solta, que usa planos bem fechados para nos aproximarmos do tema: as mulheres. As mulheres são o tema, as protagonistas e as líderes de tudo o que acontece no filme. Consequentemente no mundo. Elas escolhem os felizardos e as vítimas. Mentem sem pudor. Flertam pelo bem da espécie. Não é lindo de ver, mas faz pensar no papel masculino contemporâneo, quase nulo.


# Pedregulhos

2021-10-23 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

Adoro filmes assim, de um tema só. Curto e visceral, Pedregulhos lida com violência, mas também com rotina. Não sabemos ainda. É nossa primeira vez. Os pingos nos is são colocados apenas no seu final.

Tudo começa com o pai nervoso. Ele vai na escola do filho e o arrasta para a aldeia de sua mãe. Ela não quer mais voltar para a família. Uma briga feia aconteceu. Vemos pela nova briga com os familiares da esposa. Também percebemos que o pai nervoso é esquentadinho. O filho apenas acompanha calado, mas seu silêncio fala mais que o mundo.

Pedregulhos segue um ritmo constante com mensagens no decorrer da jornada de volta que não apenas é de descoberta do espectador, mas também nos permite observar a atmosfera desse lugar bem pobre da Índia. Este é o interior. Não estamos nas capitais nem haverá dança. Mas aprendemos como caçar e assar ratos entre os mais desafortunados da região. Desafortunados não quer dizer miseráveis. Há uma diferença. Eles não estão furiosos como o pai nervoso que não tem mais uma família. Eles dançam o ciclo da vida com pertencimento. E isso basta. Quer um pedaço de rato?

Os personagens são mecanismos para entendermos a história, mas suas personalidades são acidentes geográficos na paisagem inóspita indiana. O trabalho do diretor e roteirista P.S. Vinothraj, que estreia nessa Mostra de SP, é harmonizar a crueldade da vida com rimas e poesia. Uma pedra na bochecha de uma criança e a escrita na rocha são pistas da rotina desse universo que observamos rapidamente, pouco mais de uma hora. É econômico e ao mesmo tempo inesquecível.


# Poropopó

2021-10-23 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

Quando os palhaços chegam no cinema não sabemos mais se é a linguagem do cinema que faz rir ou é a linguagem dos palhaços que faz cinema. De qualquer forma, Poropopó é o primeiro filme dirigido pelo artista circense Luís Antônio Igreja e está em cartaz nessa Mostra de São Paulo para quebrar um pouco o ritmo incessante dos dramas da vida real.

Aqui tudo funciona e não precisa de legenda, pois é usada a linguagem universal dos palhaços: gestos. A história é sobre uma família de palhaços que vivia em um circo itinerante e resolvem tentar vida nova em uma cidade. Eles enxergam a realidade em sua volta do ponto de vista de um palhaço, eles não deixam os narizes vermelhos quando saem do picadeiro. É o mundo invertido, o que já causa estranheza desde o início, e nos faz pensar ao inverso, o que já é uma diversão à parte.

Aos poucos as palhacices, percebemos, faz parte também dos outros personagens que a família da jovem Julieta encontra na tal cidadezinha e nós encontramos rimas com as pessoas do mundo real e os palhaços, o que é deveras interessante, pois nos sentimos mais palhaços e menos gente grande vendo as interações exageradas, mas ainda cotidianas. O roteiro de Denise Bernardes e Rodrigo Parra se perde em devaneios, mas não existe trama senão a mais básica e está tudo bem. Em Poropopó a experiência conta mais do que detalhes de narrativa.

Luís Antônio é formado em cinema, dança e teatro. Dirigiu e integrou o grupo teatral Companhia do Gesto. Tudo aquilo é muito seu dia-a-dia, e sua câmera apenas aponta para os diferentes palcos da vida cotidiana. Em alguns momentos pode sonhar mais alto, como a visão de um drone do vizinho de Julieta, Romeu (sim, os nomes são caricatos, e isso é bonitinho). Como é difícil fugir das piadas comuns o filme de Igreja foca mais em trazer-nos as origens da comédia no cinema, através dos gestos dos filmes mudos, e se movimenta tão rápido que uma horinha depois já acabou.


# As Faces de Mao

2021-10-24 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

Sou São Bernadense, nascido e crescido no Grande ABC. Quando me conheci por gente lembro de meu chefe em meu primeiro emprego de office-boy me apresentar aos Garotos Podres, uma banda local de punk rock que tinha um hit de sucesso maravilhoso chamado Papai Noel Velho Batuta. Esse foi o início das minhas leituras sobre anarquismo e pensamentos anticapitalistas que consumiram alguns anos da minha adolescência. Isso já faz muito tempo, mas foi com um certo saudosismo que assisti ao As Faces de Mao, que apresenta essa visão ainda defendida pelo seu vocalista e mantenedor da formação atual da banda.

O filme começa já mostrando que Mao não é apenas o vocalista de uma banda underground contracultura. De fato nos anos 80 lá estava ele, no centro dos Garotos Podres, 16 anos nas costas, estudando em São Bernardo do Campo, núcleo das greves do ABC. O período pós-anistia da intervenção militar foi efervescente na política e na arte brasileiras, e mais ainda nesses lugares centrais ao lado de Mao: no berço do sindicato de metalúrgicos, do Partido dos Trabalhadores e de Luis Inácio Lula da Silva. Porém, dez anos depois Mao seguiu outro rumo, se formando em história e virando professor, outra atividade que lhe dá prazer. Mas continua cantando mal e porcamente, digno do movimento punk rock até hoje. Talvez mais até do que as crias do milênio.

As Faces de Mao é uma retrospectiva que vai dessa época até 2020, o ano passado, ano de uma nova gravação com uma nova formação e músicas velhas. A ideia é dar uma repaginada atual no que Mao e sua turma consideram um governo fascista. Sendo assim as músicas são tão atuais quanto as da reabertura dos anos 80. Até porque não é criticável essa paixão de defender o bem, a verdade e a justiça sob os olhos da juventude, mesmo que dessa juventude alguns representantes, como o sempre ativo Mao, já carregue quase 60 anos nas costas. Nesse sentido ao longo das décadas ele continuou sendo esse "garoto podre", embora o significado de "ser contra o sistema" mudou. E muito. Hoje todo esse movimento está praticamente alinhado não apenas com o sistema, mas cooptados pelas maiores corporações do planeta, tornando tudo isso tão irônico e contraditório quanto o plot inicial da série televisiva Mr. Robot.

O documentário faz essa junção de momentos em que Mao canta e fala através de imagens atuais e de arquivos. O título "As Faces...", assinado pelos dois cineastas Dellani Lima e do estreante em longas Lucas Barbi, acaba sendo ilusório, pois há apenas uma face: a do artista revolucionário. Pode ser cantado como vocalista de uma banda ou falado como um articulador em história e militância, mas no fundo nós sabemos que é a mesma, como o próprio afirma: "Garotos Podres é dar ritmo às falas de protesto". Acaba sendo um símbolo da piada (sim, isso é uma piada bem comum na vida real) sobre os centros acadêmicos e seus grupos de estudantes defendendo a pluralidade de ideias, quando o plural é igual a apenas uma única visão. E com a vinda da internet e dos celulares que podem gravar vídeos a qualquer momento ficou cada vez mais claro o quanto qualquer lado ideológico da moeda é tão intolerante quanto.

Mas devaneio. O doc é bacana, sim. Tem sérios problemas com a captação de som nos recortes dos shows e das músicas que ouvimos Mao performando, mas dane-se. Isso é punk, como ele mesmo diz na entrevista. Quando o perfeito não existe dá-se um jeito. Seu primeiro e segundo microfones foram improvisados, em um dos muitos divertidos causos que ele nos conta. Até nós, do CinemAqui, com tantos afazeres no dia-a-dia, damos nosso jeito de continuar escrevendo sobre cinema, fincando os pés na filosofia punk. Isso me empolga em assistir e escrever sobre esses filmes da Mostra. A pluralidade de ideias só começa a fazer sentido quando podemos expressar o quanto ser revolucionário se tornou continuar sendo um eterno adolescente utópico.

Se a utopia está na moda, bora colocar esses Garotos Podres pra tocar mais uma vez.


# Laranjas Sangrentas

2021-10-24 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

Nem só de drama social vive a Mostra. Laranjas Sangrentas é uma comédia com drama social, olha só. Mas não é só isso. Ela é bem-humorada porque é absurda e não quer finais felizes, mas finais pensantes. Nisso estamos todos de acordo.

Essa é uma mescla de personagens que se cruzam, blá-blá-blá, mas mais importante que isso são os temas variados. De política a politicamente correto passando por drama senil e as maravilhas dos hormônios na puberdade, este segundo longa de Jean-Christophe Meurisse constrói dois momentos tarantinescos icônicos sem ser um plágio. É mais uma releitura da linguagem. Até divisão de tela é usado no momento certo. Ambos os momentos giram em torno de um personagem que aparece no filme apenas para isso. Ele é instrumental e invisível, representa "o monstro".

Uma cena é praticamente a mesma de Pulp Fiction, quando o líder de uma gangue é currado. Nesse o líder é um ministro da França, mas isso apenas coloca o ser currado sob outra perspectiva. Em algum momento nos faz lembrar do episódio piloto de Black Mirror, talvez.

A segunda cena é a mais catártica, hilária e fantasiosa. Uma licença poética das feministas que defendem vingança violenta contra homens violentos. Aliás, quem defende isso nem os chamam de homens. Animais, mesmo. Dou todo o apoio. Pela maior dor e sofrimento possível, por favor. Essa cena é imperdível, apesar de perder as estribeiras do real, fugindo um pouco desse tecido levemente desproporcional que é o filme.

No meio de algumas loucuras o que mais sobressai no filme é um frescor de linguagem e diálogos soltos, cotidianos, que nos fazem pertencer à discussão. O roteirista Jean-Christophe não está interessado em defender lados, mas pincelar um pouco de contemporaneidade de todos os lados. Há representação para todo mundo nesse caos que estamos vivendo. Um caos divertido para alguns (eu incluso) e trágico para a maioria (ops, foi mal). Se você faz parte da maioria, não desanime. Vai piorar. Venha assistir TV e curtir os melhores momentos da derrocada da sociedade.


# Eu Vejo Você em Todos os Lugares

2021-10-25 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

O quão intensos são os diálogos das situações vividas pelos personagens em Eu Vejo Você em Todos os Lugares. Não são situações comuns, e por isso nos lembrariam a todo momento este ser um filme, mas a natureza naturalista das filmagens do diretor húngaro Bence Fliegauf, nos colocando em aproximação constante com essas pessoas, é de uma intimidade tão acachapante que nos rendemos ao filme e embarcamos na angústia desses seres humanos vivendo no seu limite, ainda que todas as conversas se desenvolvam dentro do lar.

Eu nem vou explorar os sete temas escolhidos pelo diretor/roteirista. Você precisa experimentar isso. Muitos lidam com a morte e torturas psicológicas, mas não há cenas fortes, apenas diálogos e atuações pra lá de inspiradas. É no não-exagero que o elenco se situa, e nos entrega um intrincado jogo psicológico, difícil de se desvencilhar. A todo momento estamos observando o momento. Há um cabo de força estendido e invisível entre os protagonistas das discussões, mas ele está tão tenso por causa dos temas abordados que fica difícil não senti-lo. Ele está quase partindo, mas a habilidade do roteirista Bence Fliegauf é mantê-lo íntegro até o fim. E tenso.

Esse seria um trabalho teatral muito bem escrito e atuado em palco, mas a direção de Fliegauf vai além, pois ao nos situar dentro do lar dessas pessoas e com uma câmera que os colocam sempre seus rostos e expressões em evidência, se torna claro que não são apenas os diálogos que fazem o serviço, mas o movimento da câmera e o enquadramento. A própria fotografia contraditória, que evoca cores quentes de um lar na maioria das vezes aconchegante, é parte do que torna este um filme coeso, de textura indissociável do seu discurso.

Nossa vontade é sair de perto dessas pessoas, mas a cada fala que ouvimos a vontade é permanecer um pouco mais. "Até onde vai essa conversa?", é o que você, caro espectador, irá ficar pensando boa parte do tempo em "Eu Vejo Você...". Vai sair da sessão extasiado, espero. E irá encontrar repouso em nossas vidas mundanas, cotidianas, comunzinhas. Como é bom ser ordinário nessas horas.


# Nostromo

2021-10-25 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

Nostromo é aquele filme que começa bem demais para ser verdade, e no meio da história ela acaba. Mas o filme não. E daí você já saca qual é a do diretor: recebeu um dinheiro para filmar aurora boreal, foi filmar um maluco vivendo sozinho e nada aconteceu. Só que no final deu apenas meia-hora de rolo gravado. Bom, bora filmar mais meia-hora. E mais meia-hora. Agora sim: "estou pronto para os festivais". Estou reproduzindo o pensamento totalmente fictício do diretor suíco Fisnik Maxville. E esse é um parágrafo bem-humorado sobre um filme não tão bom, mas que possui algumas virtudes estéticas admiráveis. Fique comigo mais um pouco.

A Mostra de SP exibe este primeiro longa-metragem de Maxville para demonstrar que ele deve se manter ainda nos curtas e médias-metragens, mas sua técnica de captura da atmosfera de um lugar é fantástica. A trilha sonora e os sons que ele escolheu para situar-nos nessa aventura de outro mundo é incrível. Somos levados para uma jornada que nenhum de nós provavelmente faria na vida real. Maxville nos transporta direto para a ação quando vemos, em primeira pessoa, a caça de um alce. E o animal abatido será desmantelado pelos humanos que o caçaram. É um daqueles momentos únicos, que você gostaria de ver pessoalmente. Mas é muito melhor com a atmosfera construída pelo diretor.

Para isso ele monta flashes do cotidiano, evocando o sobrenatural e a estranheza. Movimentos involuntários emergem. Enquadramentos desajeitados. Tudo vale para o espectador nunca saber o que está acontecendo em detalhes na vida de Olivier, esse francês que decidiu ir morar em uma pequena ilha no Canadá. Sozinho. Então três visitantes chegam ao local, o que altera um pouco a dinâmica. Acompanhamos parte de sua rotina de caça, pesca e manutenção da sobrevivência mínima em uma floresta boreal cercada de água. É no mínimo diferente de se ver, se você nunca viajou para tão ao norte.

Porém, apenas esse maravilhamento sozinho não basta. Entrevistado, aprendemos os anseios de Olivier desde jovem em ir morar no mato. Admiramos sua força de vontade indiretamente, e ficamos gratos por algumas imagens cruas capturadas no filme sobre a rotina rústica dessa vida. E após isso, meia-hora depois, a história reverbera por mais uma hora antes de terminar. A sensação é que o diretor aguarda que algo inacreditável ocorra. Mas não há nada, além do (extra)ordinário daquele lugar e suas noites maravilhosamente estreladas e esverdeadas. Esse é o presente do filme, que no fundo vem das lentes e do uso de luzes e filtros de Jules Guarneri, o diretor de fotografia.

Nostromo é uma referência, quero acreditar, à nave do filme "Alien: O Oitavo Passageiro". OK, eu sei que não é, já que a expressão italiana é mais antiga, mas se refere a viagens e companheirismo de jornada. Eu quero acreditar na versão sci-fi porque ela e mais estilosa e harmoniza com a estética desse filme que nos causa estranhamento em viver em um lugar muito diferente do que estamos acostumados. Só que no mesmo planeta. É de certa forma mágico. Mais mágico que o próprio filme.


# Amanhecer

2021-10-27 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

Como posso começar a apresentar este filme sem parecer pedante? Lembra de Mãe!, de Darren Aronofsky, e sua alegoria misteriosa, mas pertinente, a respeito da religião cristã e ecologia que todos acharam o máximo por ser um intrincado jogo de simbolismos interpretativos? E depois a maioria foi buscar vídeos na internet de "explicando o filme" porque na real ninguém entendeu nada e queria pagar de especialista? Pois bem: Amanhecer não consegue a tensão narrativa impecável do diretor de Pi, mas ganha infinitos pontos por traduzir quase que por uma seita essa loucura vivida nessa geração, a derrocada da civilização e seus valores como os conhecemos; entre outras coisas.

Tudo começa com uma direção extremamente chata de Dalibor Matanic, que conduz seu próprio roteiro que irá caminhar por todos os clichês recém-construídos de terror dramático da última década. É uma isca razoável, pensando em retrospecto depois de ter visto o filme. Mas é chato. Insuportavelmente chato, pois nos faz apostar todas as fichas em um dramalhão familiar pela perda de um dos filhos, e ainda coberto pelo clima de desesperança dos habitantes da aldeia, que estão indo embora para a cidade porque, em suas palavras, não é mais seguro viver ali.

Temos nesse núcleo familiar o pai amargurado e que se isola em seus pensamentos, a mãe que ainda nutre esperanças, ou quer nutrir mesmo não as tendo, de que um dia encontrarão seu filho desaparecido; a filha mais velha que, assim como o pai, possui uma inclinação para a música, mas diferente deste, aprende a dançar como se faz hoje em dia entre os jovens; e seu irmão caçula, jovem demais e traumatizado pela perda do irmão, não fala e apenas observa.

Este é o núcleo familiar onde cresce o drama com um comentário ou outro que sugere que as coisas irão apelar para o fantástico, o estranho e o sobrenatural. Todos juntos ou separados. E de fato isso começa a se concretizar logo após a decisão do pai de vender sua propriedade e deixar a aldeia. Toda a família é contra, mas ele não enxerga mais saída naquele lugar. Estão encurralados. Literalmente encurralados, pois a casa fica no lugar mais baixo de um pequeno vale. Talvez possamos ser generosos e dizer que é uma dica semelhante à casa vista no filme de Aronofsky, com a diferença que este pai trabalha no porão, e não tem a menor esperança de que haverá um dia melhor.

Surge então a força motriz das estranhezas do filme com um homem de mesmo nome que este pai, que em vez de estar deixando o lugar está construindo uma casa. Seus gestos imitam os do pai, exceto pela sua decisão contrária a de todos em volta: ficar, e construir sua casa, em tempo recorde de dias. Mesmo enfrentando problemas ele os enfrenta entregando mais dinheiro aos encarregados de lhe entregar uma casa com um prazo bem apertado.

Apesar das estranhezas crescerem o filme não fica bom. Ele continua insuportavelmente chato. Pois agora, ainda mais, ele lembra esses esquemas de filme de mistério que irá se revelar de maneira fútil e deslocada, para a satisfação do espectador médio. A trilha sonora dos irmãos Alen e Nenad Sinkauz é irritante de tão clichê. Os bocejos são infinitos para continuar assistindo sem dormir, e no meio das pescadas acumulamos detalhes da trama que ainda não fazem o menor sentido. E não dormimos (espero que você não durma). Esperamos pelo melhor. Vamos confiar nesse diretor (e roteirista) que parece um estreante em longas na Mostra esse ano (não é).

Então tudo muda muito rápido. A separação da família é o estopim para o filme largar de vez parte do seu pé no chão e passar a adotar as possíveis alegorias como a regra de interpretação daquela realidade do filme. Alguma coisa consegue escapar para o espectador mais atento. Eu não me considero o mais atento do mundo, talvez eu esteja levemente acima da média, mas até eu começo a entender que religião, valores e os tempos atuais estão ligados de alguma forma nessa loucura. Fica difícil bater o pé em uma interpretação e vou me abster, mas o que minha mente revelou para mim vai muito além do que eu imaginava encontrar em um filme tão chato quanto este.

Termino a sessão em êxtase. Os últimos olhares dessa família são a melhor recompensa deste cinéfilo persistente. Eu não acredito que um filme desses foi feito. Eu não acredito que estou vendo este filme na Mostra. A dança do final é um dos momentos mais gloriosos e esperançosos no cinema contemporâneo em muito tempo. E eu não vou explicar para você, caro leitor. É muito valioso para ser explicado em palavras e é quase certeza que você não irá captar essa mensagem verbalmente, tão hipnotizado ou alienado que está, e todos estamos, por esse clima tóxico do mundo moderno.

Apenas confie em mim e no meu bom gosto. Eu não costumo me impressionar muito por qualquer filme, como poderá constatar em meus textos. Para ser sincero faz anos que não tenho a mínima esperança no cinema contemporâneo. Parasita foi o fim da picada para minha pessoa. Um golpe bem dado em qualquer chance de sanidade neste mundo. Mas agora, com Amanhecer, eu me redimo. Há esperança na arte. É bem pouca e está codificada para que (((eles))) não entendam. Mas está lá. É possível sentir. Eu senti bem alto e forte. E foi lindo. Espero que você consiga também.


# Na Prisão Evin

2021-10-27 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

Uma das sacadas da direção dupla deste longa-metragem sobre uma mulher transgênero é nunca mostrar a face de Amen. Curioso, mas não original, a história inteira se passa sob seu ponto de vista. Os personagens olham para a câmera como se estivesse olhando para ela. Isso acaba se tornando repetitivo, pois o estilo impõe a percepção. Porém, assim como o destino de Amen, não há mais volta. Na Prisão Evin nunca se trai sobre seu método de filmagem, mas o preço é perder em expressão.

Isso acontece porque não se identifica com o que não se vê. OK, pode-se dizer que nos identificamos com o personagem de O Escafandro e a Borboleta (ótimo argumento o seu, aliás), mas nesse caso ouvimos o pensamento do personagem de Mathieu Amalric, que é razoável e compreensível, além de em umas poucas tomadas vermos seu rosto e sua condição moribunda e objetificada. Com isso sabemos instintivamente que há um ser humano do outro lado da tela, e não uma pessoa filmando uma festa, como geralmente esses vídeos com todo mundo olhando para a câmera se parecem. E no caso deste filme da Mostra uma festa fúnebre.

Portanto, se sacrifica a identificação com o espectador pela ideia mal-concebida de amar o que não vemos, mas, pior do que o personagem já comparado de O Escafandro, não vemos e não ouvimos. Quero dizer, ouvimos suas falas, mas elas são automáticas, robotizadas, esquemáticas. Amen responde ao que lhe perguntam como um autômato, e faz seus questionamentos na mesma moeda: sem emoção. Ela está lendo um roteiro e confusa sobre isso. "Quando que eu devo atuar?" E o filme termina.

O texto da dupla de diretores Mehdi e Mohammad Torab-Beigi não é ruim. Te leva a acreditar na situação. As atuações nos levam menos. Apenas o mistério mantém vivo o interesse. Uma metáfora envolvendo uma borboleta não. É brega e velho. Clichê para os Ocidentais aplaudirem o cinema do Oriente Médio "evoluindo" como nós. Talvez seja simbólico não mostrar frente às câmeras um transexual. Talvez seja uma lei não-escrita do país em que foi produzido. De ambas as formas uma escolha duvidosa para a arte.


# Assim Como no Céu

2021-10-30 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

Muitos ritos de passagem para a fase adulta são romantizados. A beleza da puberdade e da inocência acontecendo juntas podem ser uma experiência transformadora, além de enriquecedora do ser. Porém, "Assim Como no Céu" não quer ser um exemplo virtuoso, mas o inferno na Terra.

Só que sua beleza narrativa e estética não nos deixa tristes. Há momentos compenetrantes neste curto filme que exerce uma espécie de hipnose no espectador, que está vivendo esse inferno junto da heroína, Lise, que não sabe se sua mãe sobreviverá, já que depois de inúmeros filhos e filhas tem pela frente mais um difícil, antigo e caseiro trabalho de parto.

Estamos em uma época com pouca ciência e muita religião, ou tradição. Uma época em que a colheita é o relógio natural dos seres humanos. A função das mulheres é parir e cuidar dos afazeres do lar, e se o lar é uma fazenda os afazeres são imensos e a rotina acachapante. A sorte momentânea de Lise é que sua mãe quer que ela vá para a escola e transcenda essa ordem natural feminina. Por isso a situação de sua mãe pós-parto, com a saúde fragilizada, vira uma questão de vida ou morte para as duas, pois uma vez que a mãe morra ela, que é primogênita, precisa cuidar da casa. Para sempre. Ela herda a tiara da mãe e pode escolher cortar o cabelo, que é até onde irá sua liberdade se ficar órfã.

Nesse clima sem controle e sem esperança o mais curioso no longa de estreia da diretora Tea Lindeburg, e o que mais impressiona no filme, é o estupendo trabalho de fotografia de Marcel Zyskind, que evoca uma época de luz natural, geralmente vista em quadros pintados. As cores são sóbrias e escuras, sacrificando a nitidez pela linguagem, o que é mais belo do que uma imagem límpida. Lembra a época dos filmes de película, mas ao mesmo tempo a escolha artística de tons na era pré-câmera. O resultado não poderia ser mais poderoso e evocativo.

Outro traço belíssimo de "Assim Como no Céu" é sua não-insistência em dominar a narrativa, no sentido de "defender um lado", algo que vem estragando o cinema como um todo. Aqui não sentimos discursos sociais sendo empurrados goela abaixo, pois mensagem e filme são indissociáveis, como deve ser um trabalho maduro, ciente de si, incapaz de se trair. Não vemos um momento apelativo, o que é outro traço maravilhoso do filme em abraçar os tempos ingênuos, ou melhor dizendo, legítimos. Ele não titubeia, e com isso se torna mais poderoso. Suas cenas finais ecoam pela sala. Uma sessão tensa. Não é comovente. É um soco psicológico no estômago. Nunca um filme tem um final tão triste sem precisar fazer nada para isso. Exceto existir.


# O Atlas dos Pássaros

2021-10-30 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

O Atlas dos Pássaros é uma incursão corporativa e familiar tensa do diretor iugoslavo (hoje a Eslovênia) Olmo Omerzu. Tudo começa com um pequeno detalhe na rotina do empresário Ivo Rona e CEO de uma companhia familiar, quando ele descobre que sumiu uma quantidade vultosa de dinheiro dos caixas da companhia. Esta é a maior crise nos negócios da empresa em três décadas e Omerzu filma tudo com uma cena puxando a outra. Não há pausas na tensão, mesmo quando Ivo Rona sofre um infarto e seus filhos passam a ser o foco em cena. Esta é apenas uma pausa para o café.

A história escrita por Omerzu e por Petr Pýcha é crível a ponto de pararmos para pensar se não se trata de uma adaptação de uma notícia do jornal de economia da Eslovênia. E a coisa se desdobra em cima de um personagem cuja obstinada dureza carrega um piano nas costas (a companhia) e não quer nem aliviar a carga nem compartilhá-la com seus três filhos. Ele não suporta a administração de seus filhos homens e gostaria que sua filha mulher assumisse por ser a mais centrada e razoável. Porém, ela acabou de ter seu neto. E simples assim todo o plano de longa data de três gerações sai dos trilhos quando um caso clichê do magnata e sua "secretária" (aqui contadora) coloca não sua vida pessoal, mas a profissional a perder.

O tom de O Atlas dos Pássaros é bem noveleiro e o roteiro brinca com uma piada interna a respeito do dono da empresa cadastrar nos contatos do celular seus casos extraconjugais com nomes de pássaros. O filme dá voz aos pássaros das paisagens por onde se passam as cenas, o que vira mais uma distração do que qualquer coisa. No fundo o filme gostaria muito, aproveitando a moda, de fazer alguma crítica social a respeito de ricos e pobres e como todos irão morrer cedo ou tarde e se trata sobre o percurso, e não sobre o sucesso ou fracasso da empreitada, mas a incursão dos pássaros é tímida demais frente à trama principal.


# A Lei

2021-10-31 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

A Lei funciona assim: um desses maconheiros de elite, de vanguarda, pós-moderno, usando metalinguagem, fazendo livres associações, decide que vai fazer um filme sobre "todas essas porra aí". Ele monta um texto pra ser dito em primeira pessoa, escrito errado e com palavrões para soar certo com a vida real (como neste parágrafo). Seu objetivo? Comer umas ninfetinhas maconheiras por aí, lógico. Isso e ganhar dinheiro.

Porém, as leis de incentivo à "cultura" estão sendo remodeladas, ou nos termos da esquerda, desmontadas. Então falta dinheiro para estes projetos mais experimentais. Como a Resistência não pode parar a solução é filmar tudo em um boteco de esquina em uma sequência só. Isso sim, é vanguarda. Pós-modernista. Metalinguagem. Essas porra aí. E barato. A equipe já come no estabelecimento. Fecha um pacotão pra descontar da mais-valia (na real do salário dos funcionários).

A Lei é um filme de uma nota só orquestrado para ser rápido, verbal, teatral e subjetivo. Seu texto é de baixo calão com diferentes tons de violência, mas, principalmente, de perversidade. O objetivo é posicionar as forças da lei, as de execução apenas, dentro de um contexto social em que se torna difícil, se não impossível, disassociar seu discurso maquiado como fala cotidiana do sentimento de culpa e impotência dos intelectuais de classe média e suas populares e "filosóficas" rodinhas de maconha.

Mas não é apenas nas rodinhas que a conversa gira. O objetivo é atacar pais, tios e avós desses ditos intelectuais. Principalmente os com opiniões políticas contrárias ao intelectual. Durante as infindáveis discussões durante a adolescência sustentada pelos pais criou-se um intelectual de esquerda sustentado pelo Estado e feridas afetivas de cunho familiar. O que os hormônios e uma vida fácil não geram apenas a extrema miséria explica.

Para tocar nessas feridas de infância com propriedade verborrágica e pseudo-racionalidade metalinguística o texto gira sobre contravenções e crimes graves cometidos pelos policiais, que são a voz do pior profissional de segurança possível, mas que no filme vira o exemplo de serviço essencial exercido por essas forças. As ações são de tortura, e as vítimas os excluídos da sociedade: mendigos terminais, mulheres e crianças da rua. Nada original, claro. É para ser bruto e chocante, não criativo.

Em meio ao mais do mesmo dividido em um rodízio de sete (ou oito? não me lembro mais) policiais durante um almoço falando, pensando e comendo seus PFs, a função de nós, espectadores, supostamente é se escandalizar frente a isso. Ou refletir. Sobre o quê, exatamente, me foge agora. A última frase dita no filme avisa que se eu não entendi nada do que foi falado é porque sou burro, no que chegamos na forma mais infantil de um cineasta se proteger contra críticas de um roteiro meia-boca. Além de se desculpar por ter escrito um texto tão metalinguístico, tão de vanguarda, tão de... maconheiro.

Nota: o uso neste texto de expressões chulas, de baixo calão e de péssimo gosto provém da minha necessidade de conversar no mesmo nível proposto pelo filme, visto que a comunicação literária deve sempre partir do pressuposto de manter um contexto social único. Explicar o filme em um nível burguês iria contra os princípios deste longa. Além de cobrar mais-valia de você, caro leitor. Ops, desculpe meu português: cobrá-lo.


# Filho das Monarcas

2021-10-31 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

Bacana esse Filho das Monarcas, do diretor franco-venezuelano Alexis Gambis. É difícil explorar um tema vão vasto quanto as nossas origens biológicas neste mundo, algo apenas dominado por Terrence Malick em A Árvore da Vida. Porém, o filme de Gambis denota alguns momentos em que ele fica muito próximo de chegar em algum lugar promissor. Infelizmente, são tantas opções juntas que essas oportunidades fogem voando como nuvens de borboletas.

A história gira em torno de Mendel, um cientista mexicano que está prestes a publicar um trabalho em Nova York a respeito das manipulações evolutivas das espécies de borboletas que vem pesquisando há (aparentemente) muito tempo. Essas borboletas fazem parte de sua infância na terra natal e suas memórias com a avó, o melhor amigo e o irmão. É a morte da avó que traz essas lembranças de volta e que faz com que Mendel retorne à sua cidade e reveja seu irmão e um assunto ainda não resolvido entre eles, motivo de muita mágoa.

A dança entre os diferentes temas e interações dos personagens é elegante. Tanto a música de Cristóbal Maryán e a edição de Èlia Gasull Balada e do próprio Gambis tratam este roteiro, também de Gambis, com muita afeição e familiaridade. Nós imergimos nessa história naturalmente, e meia-hora depois não desgrudamos os olhos do que irá acontecer.

Alexis Gambis já dirigiu outros dois longas-metragens e gosta de explorar a nossa relação com comportamento animal. Além disso, é fundador da Labocine, um site de streaming que combina ciência e como ela se insere na arte cinematográfica. Isso explica todo o cuidado do cineasta com o tema em Filho das Monarcas, onde as pesquisas que seus personagens conduzem fazem todo o sentido. Não há nada de extraordinário na trama, pois o incrível já faz parte da nossa jornada científica em busca de um vasto conhecimento sequer explorado ainda.

Filho das Monarcas passou nessa Mostra de São Paulo que se encerra, mas ainda é possível ver em seus últimos dias, além de provavelmente o filme estrear nos circuitos comerciais, embora atrasado (o contexto que se passa a história é 2019). É um conteúdo muito bem-vindo a todos que apreciam cinema e ciência. Juntos, então, quase imperdível.


# Fogo nas Montanhas

2021-10-31 tag_cinemaqui tag_mostra tag_movies ^

Fogo nas Montanhas é uma mistura bem-humorada e ao mesmo tempo dramática entre cultura indiana e a corrupção dentro de cada um de nós. A corrupção é tão intensa que mentimos para nós mesmos, e quando isso encontra a religião essa volta completa em torno do ser e da comunidade se dá o nome de cultura: as mentiras socialmente aceitas.

A história: família que mora no topo da montanha passa por complicações financeiras porque seu filho caçula após um acidente não consegue mais andar por cinco meses. Ele não vai à escola e precisa do suporte da mãe quase todo momento e gasta uma fortuna com o médico picareta. Enquanto isso o pai submisso acredita estar amaldiçoado por sua divindade e a filha mais nova se apaixona pela atenção de anônimos na rede social Tik Tok. O líder político local posterga a construção de uma estrada que ajudaria a todos, mas prejudicaria seus próprios negócios. Soa familiar algum desses detalhes da história ou este é um filme brasileiro?

Não, é indiano mesmo. E bem peculiar artisticamente. Se passa próximo da região do Himalaia conhecida como a Suíça indiana. Cada região diferente da Índia é uma cultura ligeiramente diferente do todo, que não existe, é uma ilusão da época do império britânico. Mais ou menos como acontece com o Brasil e suas regiões arbitrárias entregues ao comando do lugar-nenhum chamado de Brasília.

A trama segue os caminhos de uma comédia engraçadinha, mas o filme nunca se esquece como pode ser doloroso mentir para os outros, e por consequência para si mesmo. Não é uma história universal, mas justamente por isso encontramos alguns detalhes tão particulares, como o menino que sofre bullying na escola e que prefere ficar para sempre em uma cadeira de rodas do que voltar para lá, que é do particular que o filme atinge uma mensagem mais global para o espectador do mundo inteiro.

Fogo nas Montanhas está ainda passando na Mostra desse ano, inclusive online. É a estreia em longas do seu diretor, Ajitpal Singh. Uma visão bem peculiar e divertida de costumes locais que demonstra como não é apenas o nosso mundo em volta que está mudando, mas até vilarejos remotos da "nova Índia", a que coloca satélites no espaço.


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