# A Cor Púrpura

2024-06-04 tag_movies ^

Imagine um remake deste filme de Steven Spielberg de 1985, mas com personagens brancos. Ridículo, não? Deslocado. No melhor dos casos: patético. Você remove toda a carga e atmosfera cultural de uma etnia e por consequência conta uma história dissociada da realidade de seu microcosmos, este mundo das mulheres negras do início do século 20 no interior dos EUA descrito no livro homônimo de Alice Walker. É um romance epistolar, contado no formato de cartas que a protagonista escreve, mas nunca envia, para Deus e sua irmã, separada por quase toda a vida.

Whoopi Goldberg faz essa protagonista viver quase sempre com seus movimentos de olhos. Sua fase adulta é uma mistura de sagacidade por entender o sistema pelo qual ela administra o violento e ignorante marido e ao mesmo tempo ingenuidade por nunca ter vivido fora de um casamento ou sob o domínio do pai, que a estuprava e teve com ela dois filhos, afastados há tanto mais tempo que a irmã que ela não tem certeza se os teve mesmo.

Spielberg dirige seu material com um conhecimento absurdo. Sua equipe está alinhada na narrativa. Seu estilo torna uma experiência pesada em uma jornada quase lúdica pelo sofrimento desta e de outras mulheres. O filme dá muitas chances de te emocionar, mas é apenas no arco final, no retorno dos filhos, que você percebe o arco maior, metafórico, do retorno às origens africanas, que é o mais poderoso de todos. É um filme para a família (com ressalvas), mas é ao mesmo tempo um trabalho maduro, que ambiciosa ir além da superfície melodramática. Mais que um estudo de personagens históricos, é um estudo de época e de seus costumes.


# Wonka

2024-06-04 tag_movies ^

Lúdico até dizer chega, esta versão musical de Willy Wonka Origins é lúdico e fofinho porque não é dirigido pelo Tim Burton, mas por Paul King, como assim como em Paddington prioriza a magia dos sonhos. O ator francês de Duna está estranhamente à vontade e o elenco é afiado. Hugh Grant vergonhosamente pagando seus boletos como um Oompa Loompa cuja cabeça está tão mal encaixada no CGI que já vi trabalhos melhores feitos para Tik Tok. Mas o design de produção é competente, antes de ser criativo. Fundo verde para todo o lado.


# Tribunal Noturno

2024-06-04 tag_series ^

Pensei que não fizessem mais séries sitcom com diálogos apressados e mal feitos como esse, mas aqui estamos em 2024. Aqueles personagens preguiçosos e uma noção zero de como agradar o espectador. É impossível assistir um episódio de 20 minutos sem pensar em dropar imediatamente.


# Assassino por Acaso

2024-06-10 tag_cinemaqui tag_movies ^

Gary Johnson, este pacato, metódico, monótono professor de Psicologia e, como se não bastasse, Filosofia, vai aprontar poucas e boas em uma adaptação livre de sua biografia em um romance fofo e doentio na medida certa para que nós, espectadores, nos identifiquemos com as ondas da paixão entre a inesquecível Madison e o agora alterego perigoso e atraente Ron.

Um filme com uma trama com mudança de personalidade atrelada à máxima filosófica de Nietzsche em se transformar na melhor de suas versões dentro de uma investigação policial envolve uma porrada de temas. Felizmente, o filme consegue dar uma ideia, ainda que não muito profunda, de como todos estes temas poderiam dialogar entre si.

Me incomoda o fato dos seus personagens serem tão amáveis e a química do casal tão instantânea e ainda assim precisamos percorrer um longo caminho para a redenção. Mas esta é a regra do jogo: sem conflitos, sem filme.

O que incomoda mais é que o forte do diretor Richard Linklater (Trilogia do Antes, Jovens, Loucos e Rebeldes, Escola do Rock, Boyhood) não é nos envolver em tramas complexas e fechadas, mas nos embalar em experiências humanas que realçam a relação irreconciliável entre a lógica racional e as emoções que trazem essa mesma lógica viva e com energia para nosso mundo verborrágico e implacável.

Não à toa Linklater é o anfitrião de temas existenciais com uma irreverência quase impossível. E não à toa acompanhei este filme com pelo menos um pouco de ceticismo.

O resultado não é dos melhores. Ele é engraçado, isso ele é. Um humor em alguns momentos sombrio e até condenável, dependendo de como você enxerga o sistema de justiça. Esse tema infelizmente não é desenvolvido o suficiente até o momento em que um personagem chave morre e esta seria uma rima perfeita (não foi dessa vez).

Mas se o pecado do filme é não ser profundo demais em uma comédia dark, acho que ele está mais que perdoado pelo espectador comum, que vai se divertir imensamente com a trama principal. Há uma tensão tremenda que nunca termina, mas que te engana em alguns momentos que parece que tudo irá dar certo até não dar. Gente que vai ao cinema adora isso.


# legacy_stdio_definitions [link]

2024-06-11 tag_coding ^

Estava eu com meu Visual Studio compilando um arquivo C e de repente:

unresolved external symbol sprintf

Uai. Depois de 30 segundos descubro que isso não ecxiste mais e que preciso adicionar esta lib para linkar:

legacy_stdio_definitions.lib

E tudo se resolveu =/


# Our Coffee

2024-06-11 tag_coffee ^

Pedi um espresso para viagem. O atendimento é bem relapso, nem olham na sua cara. O café é bom, acima da média. Pode pedir que vai ser melhor que o bar da esquina (e levemente mais caro). Boa opção para coffee to go do lado do metrô.


# Alocação sem construção

2024-06-11 tag_coding ^

Meu amigo está mexendo com allocator e fez o seguinte teste, o que pode dar a ideia errada para o iniciante, porque testei aqui e deu tudo certo:

#include 
struct A {
    A() = default;
    uint64_t x;
};
int main()
{
    auto alloc = std::allocator();
    A* p = alloc.allocate(2);
    p1.x = 10;
}

Porém, ele não havia revelado que a “struct” que ele usou não era dessas sem complexidade alguma, mas a std::string, que depende da construção porque possui membros que controlam o estado do objeto. E aí sim apenas alocar o espaço na memória não é suficiente. É preciso construir o objeto chamando o construtor.

#include 
#include 
struct A {
    A() = default;
    uint64_t x;
    std::string y; // new member
};
int main()
{
    auto alloc = std::allocator();
    A* p = alloc.allocate(2);
    p1.y = "y"; // crash
}

Ao depurar a chamada ao `operator =` que chama por sua vez o método `std::string::assign` é possível ver que o objeto está com os membros `size` e `capacity` com lixo. O que faz sentido, já que o construtor dessa string nunca foi chamado.

-		this	0x00000216888f5858 	std::string *
		size	14829735431805717965	unsigned __int64
		capacity	14829735431805717965	unsigned __int64
+		allocator	allocator	std::_Compressed_pair,std::_String_val>,1>
		0		char

Para corrigir isso podemos usar o que C++ chama de placement new: uma construção de objeto em memória previamente disponível.

A* p = alloc.allocate(2);
new (p) A2; // remember to use new array operator!

# Sensory Coffee Roasters

2024-06-11 tag_coffee ^

Cafeteria tranquila distante das ruas comerciais e que oferece um espaço amplo e tranquilo para passar a tarde tomando café e comendo alguns dos variados pratos de doces e salgados. Os pães são de fabricação própria e há o de longa fermentação que é uma delícia (experimentei o pão na chapa). O brioche também é bem legal (experimentei um com rúcula e tomate seco).

O atendimento é muito bom. Pessoas atenciosas demais. Mesmo sentado na parte de cima há um cuidado em levar os pedidos e verificar se você precisa de mais alguma coisa. Achei muito diferente de outros lugares com dois ambientes que apenas te largam em um deles.

Sobre o café, eu experimentei quatro: um espresso, dois coados e um cappuccino. O espresso estava interessante, os coados maravilhosos e o cappuccino um dos mais bem feitos que já vi. Iria de novo apenas pelo café.

Ah, e pelo ambiente :)


# A Semente do Mal

2024-06-11 tag_cinemaqui tag_movies ^

O título original deste filme é Amelia's Children (as crianças de Amélia), o que faz muito mais sentido que A Semente do Mal, que além de vago lembra qualquer outro terror de sustos que já tenha estreado.

O que seria uma injustiça, pois este é um entretenimento sem sustos baratos. Ele mantém o terror psicológico, o que está de bom tamanho quando olhamos para a matriarca de uma família muito estranha. Ela passou por cirurgias plásticas o suficiente para perdermos o elo entre uma máscara e um ser humano, a linha tênue entre a feiura e a caricatura.

Anabela Moreira é a Amélia do título original desta produção belga-portuguesa. Ela emana e sugere uma figura conhecida da mãe que precisa comer seus filhos para permanecer jovem, um tema recorrente em muitos contos de fadas e mitos antigos. Esta figura é frequentemente retratada como uma bruxa ou uma criatura sobrenatural. Embora a origem exata deste tema seja difícil de rastrear, ele aparece em várias culturas ao redor do mundo.

No contexto de "A Semente do Mal", este mito atemporal é usado para explorar temas de vaidade, obsessão pela juventude e a degeneração do amor materno em uma obsessão doentia. A mãe, Amélia, torna-se um símbolo de terror, com suas cirurgias plásticas excessivas e sua transformação de uma figura materna em uma caricatura grotesca e assustadora.

A construção do enredo merece destaque. Ele parte de um lugar comum na tecnologia de hoje em dia com rastreamento de descendentes através da análise genética e nos remete para uma casa secular no meio de uma floresta portuguesa, terra-natal de Ed, que mora em Nova Iorque junto da jovem Riley. Ambos são yuppies e não possuem família próxima. Ed principalmente. Ele nunca soube de suas origens até ser presenteado por Riley com um desses serviços de rastreamento, o que o faz se reencontrar com sua mãe e seu até então desconhecido irmão gêmeo Manuel.

E quando você descobre que há um irmão gêmeo na jogada, o formato de uma novela vem à mente. O casal parte para o casarão isolado e, encantados a princípio, logo cada um irá trilhar caminhos diferentes nesta história.

Ed e Manuel são interpretados por Carloto Cotta e não há momento algum que você duvide que são duas pessoas distintas, com histórias de vida totalmente diferentes. Tudo bem que Ed com seu moletom surrado e usado logo se assemelha a um paciente em hospital psiquiátrico, sem muita personalidade para exibir. É Riley a responsável por mover a trama.

Ela é interpretada por Brigette Lundy-Paine com uma leveza inicial que lentamente se transforma em medo, angústia, desgosto e puro pavor. Sua voz oscila da certeza da intuição feminina até o ápice de não saber se sairá viva deste pesadelo da “vida real”.

A Semente do Mal poderia ser um estudo de personagens perturbador não fosse seu roteiro esquemático que está em busca daqueles fãs do “neo terror” da última década. A estrutura do suspense dramático segue todas as fórmulas que foram aos poucos sendo redescobertas no cinema dos últimos anos. Desde o moletom de Ed remetendo às vestes de dormir de Amelia Vanek tendo que cuidar de seu filho inquieto em Babadook sem conseguir ter um momento de paz, dormindo acordada, até a alusão leve e sutil de herdeiros que se aproveitam do status quo construído ao longo de gerações para permanecerem impunes ao que quer que façam, criminosos ou não (Corra!).

Infelizmente, ao se entregar demais às fórmulas, a produção bem dirigida por Gabriel Abrantes não mergulha junto na loucura do seu universo pecaminoso e cruel. Em contrapartida irá soar muito mais palatável à “elite” dos consumidores de terror desta década, um grupo de cinéfilos tão exigentes que existe uma fórmula a ser seguida para agradá-los. Para alguns (muitos) a ironia se perde entre as palavras que acabei de escrever.


# Fiz Chili

2024-06-11 tag_cooking ^

Há infinitas possibilidades de chili. O que eu fiz ficou bom para pegar com nachos, porque tem pouco caldo, e o que tem é levemente mais grosso para grudar no salgadinho de milho.

Este não vai feijão, mas talvez experimentem em uma próxima vez. Vai carne moída (para ficar fácil de pegar com nachos) que você pode queimar em uma panela para gerar a reação Maillard e separar. Na mesma panela refogue com manteiga cebola, alho, um pouco de tomate junto de extrato e tempere com coentro, louro, páprica defumada, salsão se tiver (eu não tinha, usei alho-poró) e alguma pimenta. Escolhi uma de molho de chili para ficar com o sabor característico. Também salpiquei um pouco de molho inglês.

Para a salsa use pimentão vermelho, a gosto mas é bom um médio para 600g de carne. Queime ele um pouco no fogão (direto no fogo) e depois junto de alguns tomates cortados ao meio, uma cebola e algumas pimentas a gosto coloque no forno (se tiver grill melhor ainda) até caramelizar. Quando estiver pronto bata tudo e junte à carne como um molho. Tudo em fogo alto para integrar e depois em fogo baixo para ir pegando sabor.

O segredo de um bom chili é esse tempo para pegar sabor. Reduza o molho ao mínimo e quando estiver ao seu gosto dissolva um pouco de amido de milho e integre para dar aquela pouca grossura que vai ajudar o molho a não ficar tão aguado e grudar nos nachos. Se já estiver assim ignore este conselho.


# Fiz guacamole

2024-06-11 tag_cooking ^

E não foi uma vez. Para essa receita não tem segredo: avocado maduro amassado ao seu gosto, tomate em igual quantia, cebola, sal, pimenta, limão, azeite e outras iguarias que preferir. Misture tudo próximo de servir.


# Fiz sour cream

2024-06-11 tag_cooking ^

Uso essa receita já há alguns anos. O segredo é deixar uma caixinha de creme de leite no freezer por um tempo e retirar quando ele não estiver totalmente duro, mas um tanto molenga (ou deixar esquentar a este ponto). Bata na batedeira junto de limão e sal a gosto. Não bata demais para não virar chantily. A consistência dura por no máximo uma hora, mas se sobrar pode bater na mão novamente que ele volta à forma original.


# A Ordem do Tempo

2024-06-12 tag_cinemaqui tag_movies ^

Selecionado para o Festival de Cinema do Rio de 2023, a diretora Liliana Cavani desafia as convenções do próprio tempo. Inspirada pelo livro homônimo do físico italiano Carlo Rovelli, o filme compõe uma meditação sobre a mortalidade, a amizade e a natureza fugaz da conexão humana, além da nossa cada vez mais óbvia ignorância e incompreensão da oculta e verdadeira vulnerabilidade neste mundo.

Uma crise existencial e coletiva assola as personagens deste drama italiano. À medida que o tempo passa, o grupo de amigos, reunido para comemorar um aniversário marcante, é confrontado com a notícia bombástica de que o mundo em breve poderá chegar ao fim. O choque inicial dá lugar a uma sensação de distanciamento, à medida que cada personagem luta com sua própria mortalidade, revelando segredos há muito enterrados, conflitos antigos e emoções não ditas.

A direção de Cavani é uma aula de sutileza, capturando a intensidade emocional das interações do grupo com um olhar atento aos detalhes. O ritmo do filme é deliberado, permitindo ao público absorver o peso das crises existenciais dos personagens. A cinematografia, com o cenário pitoresco da vila servindo como pano de fundo comovente para as jornadas introspectivas dos amigos, não poderia ser mais confortante neste momento.

Mas o que realmente diferencia “A Ordem do Tempo” é a sua recusa em fornecer respostas fáceis ou resoluções claras. Este filme é uma exploração complexa, confusa e profundamente humana da condição humana. É um reflexo da nossa própria mortalidade, dos nossos relacionamentos e das escolhas que fazemos face à incerteza.

Num mundo onde o tempo se esgota, “A Ordem do Tempo” lembra-nos que são os momentos que partilhamos com os outros que realmente importam. Este é um filme que perdurará por muito tempo após a rolagem dos créditos, assombrando-nos com suas perguntas e desafiando-nos a reavaliar nossas próprias prioridades diante do desconhecido.


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